sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.

Tema: Minha vida não é uma gozação.

Episódio 6-Daphné, 30 anos – Puta Francesa.

Quando eu vim morar aqui na França, muito me questionei sobre um pseudônimo, afinal, meu nome já é francês e perfeito para minha profissão. Mas como todas nós, putas, gostamos de usar falsos nomes para nossa própria segurança, eu resolvi que meu codinome seria D’janne. E desde que iniciei minha carreira, sou conhecida assim pelos belos homens carentes de Paris.
Sim, eu vim para França ciente que iria me prostituir, pois aqui nós somos muito valorizadas e bem pagas. Não nos apontam nas ruas com falsos olhares, nem somos tratadas com indiferença nos salões de beleza e principalmente, não somos espancadas nos pontos de ônibus pelos riquinhos da cidade. Todos aqui são muito educados e respeitosos.
Moro aqui há onze anos, e desde adolescente já sonhava com isso. Sempre gostei de sexo. Aos quatorze anos perdi minha virgindade com um namoradinho brasileiro, dois bobos, e ele mais ainda. Quando descobri a relação sexual, o prazer e a volúpia, me perdi em sonhos eróticos e desejei fazer isso sempre. Pesquisei muito a respeito da minha profissão, e o lugar que eu vi mais felicidade profissional foi aqui em Paris.
Minha mãe não aceita, claro. Mas sabe usar com sabedoria o dinheiro que mandando mensalmente. Não entende que as putas daqui da França são bem diferentes das putas brasileiras. Se iniciasse minha carreira aí, eu já teria sido espancada, obrigada a fazer coisas que aqui não faço, drogas, caráter – tudo já teriam arrancado do meu instrumento de trabalho, minha vagina. Aqui não. Além de nos pagarem bem, os Franceses são extremamente carinhosos, muitos já até se apaixonaram por mim.
Aqui eu danço, atendo no meu apartamento, acompanho em festas e até faço a namorada do gay, saio com lésbicas também, mas só de alto nível.
Aqui eu posso ser tudo o que eu quero, posso comprar tudo que desejo, raramente me apaixono, viajo muito, sou saudável, bebo bebidas caras e freqüento os melhores salões. Fiz minha fama aqui, e sou absolutamente realizada com a minha profissão. Já no Brasil, o máximo que uma puta pode alcançar é um filme pornô com o Frota.
Bom, obrigada pela oportunidade e interesse na minha vida profissional. Espero não ter animado garotas para vir fazer vida aqui na França, pois eu tenho o dom, e nem todas deram certo aqui, e ainda depois de muito lavar prato na casa dos outros, voltaram para o Brasil com a mão na frente e outra atrás.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.

Tema: Minha vida não é uma gozação.

Episódio 5-Miralva, 47 anos – Promovida.

Antes Miralva dos Santos de Jesus Silva, hoje Paola Cristina. Comecei novinha, nem sabia o que era direito. Minha mãe de sangue me vendeu pra uma família lá em Alexânia, Goiás. Dona Neuza, que me criou até uns 12 anos, sempre disse que eu era muito da assanhada, e que nem sabia o por quê que ela tava comigo se ela tinha certeza que eu não vingar pro bem. O marido dela, Seu Abílio, ficava me bulinando quando eu ia tomar banho. Eu nem sabia de nada, era inocente, e como tinha ele como um pai, eu até gostava. Um dia Dona Neuza me pegou fazendo coisa com Ele no banheiro,ficou nervosa, me bateu tanto que eu quase morro ali mesmo. Juntou minhas coisinhas e me botou na rua.
Quando eu saí de casa, não tinha idéia de lugar nenhum pra ir, aí entrei em um bar chamado cachaça do diabo, e lá conheci uma macumbeira chamada Mãe Odina, que disse que ia me conhecer e descobrir a minha vocação. Ela me levou pra casa dela, jogou minhas coisas fora e me arrumou toda pra ir fazer despacho com ela. Eu aprendi muitas coisas com ela: recuperar o amor em vinte dias, curar doença de cabeça, destruir as pontes do mal na vida das pessoas, muitas coisas. Aí ela descobriu minha vocação: Puta.
Me mandou pra um brega de iniciantes lá em Aparecida de Goiânia, se chamava centro noturno de lazer de Goiás. Eu entrei lá, ela me rezou, e eu fui falar com a dona: Rosângela Marcia. Rosa me falou –‘mostre o que tu sabes fazer, putinha.’ Aí eu fui até um homem que tava sentando lá e bebendo, peguei a garrafa na mesa dele, bebi tudo no gargalo, tirei as calças dele e caí de boca no homem. Ela ficou encantada com meu jeito, me arrumou logo um quarto e eu comecei a trabalhar no mesmo dia.
Eu era o sucesso do centro noturno, todos os homens me procuravam. Passaram dois anos eu trabalhando lá, Rosa me chamou pra ser dançarina do bar do companheiro dela. Bar de luxo. Cheguei lá, as quengas ficaram com inveja de mim porque eu sempre fui muito bonita por causa da minha cintura de pilão e meus peitos duros. Aprendi a dançar tudo. Fiquei só nesse bar: ganhava mais, os fregueses eram mais educados e os quartos mais arrumados. Fiquei como dançarina mais ou menos uns dez anos, aí Rosa morreu. Mataram Rosa. Foi uma tragédia na minha vida. Fiquei parada dois meses , não tinha forças pra trabalhar, me acabei no álcool, comecei a fumar. Aí o viúvo de Rosa me chamou pra ser gerente desse bar e substituir Rosa. Eu aceitei. O trabalho foi dando certo, e hoje eu treino as putinhas novas no centro noturno, treino as dançarinas e ainda dou conta da parte administrativa do bar.
Eu acho que na minha vida deu tudo certo, graças aos trabalhos feitos por Mãe Odina. Sem ela, eu não seria quem sou hoje em dia. Toda sexta-feira eu vou no terreiro, faço meus trabalhos, ajudo Mãe nos despachos e quero morrer fazendo isso, porque é minha vocação, é meu dom e muita gente depende de mim pra sobreviver.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.

Tema: Minha vida não é uma gozação.

Episódio 4- Ludimila, 25 anos – Mãe.

Meu nome é Ludimila, mais conhecida como Alessandra. Moro em Porto Seguro.
Iniciei minha carreira aos 18 anos, quando terminei os estudos. Nunca fui muito estudiosa, mas minha mãe sempre pagou escolas caras para mim. Todas as minhas amigas eram patricinhas, e eu sempre tentei acompanhá-las, mas minha família nunca foi rica: minha mãe professora e meu pai comerciante. Por isso nem sempre podia desfrutar de festas caras, roupas de marcas, perfumes, carros, etc.
Quando terminei o terceiro ano do ensino médio, minha mãe me obrigou a fazer vestibular, mas eu não queria estudar, tinha muita preguiça. Foi aí que tive a idéia de fazer faculdade fora. Tentei passar no vestibular, mas não consegui. Então menti pra minha mãe dizendo que tinha passado, ela ficou feliz e me apoiou quando eu fui morar em Feria de Santana para “estudar”. Me mandava dinheiro, roupas e alimentação. Após um ano ela descobriu que não havia passado no vestibular, e me abandonou de vez.
Como eu já tinha umas amigas por lá, eu comecei a me informar como eu poderia me sustentar da maneira mais prática. Prostituição. Comecei em Feira, quando já estava manjada lá, fui pra salvador, Grávida. Deu para esconder a barriga durante sete meses, mas quando descobriram, não queriam mais me pagar – já fui abandonada num motel longe da cidade por isso. Liguei pra casa, implorei pra minha mãe me dar uma chance, mas meu pai queria me obrigar a abortar. Como minha mãe era muito religiosa, ela conseguiu convencê-lo que isso era um crime, e eu tive minha filha.
Quando Luíza, minha filha, completou um ano e quatro meses, meus pais me fizeram uma proposta: ou você arranja um emprego descente para sustentar a sua filha, ou você sai da nossa casa e deixa Luíza aqui com a gente.
Saí na manhã seguinte para procurar emprego, mas não levava jeito para nada, pois nunca trabalhei pra ninguém, todos os trabalhos exigiam experiência, ou pagavam muito pouco. Eu estava acostumada a tirar duzentos por noite, não queria trabalhar pesado para ganhar salário.
Deixei minha filha com meus pais e vim fazer vida aqui em Porto Seguro. Todo mês mando dinheiro para Luíza e minha mãe. Pago escola, plano de saúde, transporte, alimentação, lazer – tudo para minha filha. E aqui tenho vida de dondoca: carro, casa, celular arretado, roupas caras: um sonho realizado.
Sempre volto pra casa no aniversário da minha filha, no são João e no natal. Porque aqui em Porto, sempre é alta temporada, não posso deixar meus clientes NA MÃO. Risos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.
Tema: Minha vida não é uma gozação.
Episódio 3- Soraia, 31 anos – Aposentada.
-Bom gente, eu gostaria de antes de qualquer coisa, agradecer à Deus pelas coisas maravilhosas que aconteceram na minha vida, porque...
-Srª Soraia, queremos saber da sua vida como garota de programa...
-Ah sim sim... desculpa, gente! Naquela época que eu não tinha aceitado Jesus ainda, eu usava outro nome, era Dalva, Dalva da BR. Eu ficava fazendo vida ali em Bejo da Madre de Deus, Pernambuco.
A vida não era fácil. Já fui abandonada longe da minha cidade, já fui obrigada a usar drogas, já me espancaram... Nesse dia eu fiquei só o creme. Só Jesus na minha causa. Fiquei um mês no hospital.
Quando eu voltei pras estradas, o povo nem acreditou que eu tava viva. Já tinha puta nova no meu lugar, deu uma briga danada. Pra eu achar outro ponto pra ficar foi um sacrifício. O ponto que eu achei ficava na frente de uma igrejinha no meio do mato. Todo dia eu tinha vontade de ir lá pra ver como era o negocio. Foi aí que eu conheci um homem que me tirou dessa vida de mulher ruim, Reginaldo.
Ele era caminhoneiro e ia uma vez por semana na missa dessa igrejinha. Reginaldo me prometeu que se eu saísse dessa vida, ele ia me assumir, casar e ter filhos comigo. Eu fiquei meia assim, porque tinha medo de ser sustentada por homem. Mas meu coração me disse que tava na hora de sair dali e começar uma nova vida.
Aceitei Jesus, casei, tenho dois filhos: Leandro e Leonardo, porque eu sou fã deles. Eu morro de vergonha do meu passado, mas foi ele que me levou ao grande amor da minha vida.
Eu quero aproveitar a oportunidade pra agradecer e orar a Deus...
- Obrigada Senhora, seu tempo acabou...

sábado, 27 de novembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.
Tema: Minha vida não é uma gozação.
Episódio 2- Amanda, 20 anos – Universitária
Amanda de Jesus, mas odeio o de Jesus, na noite me chamo Ketlin. Iniciei minha carreira logo que vim morar em salvador, pois minha faculdade é muito cara, e o dinheiro que meus pais mandam é pouco.
Quando eu cheguei aqui, era bem inocente, boba. E ficava com medo de gastar meu dinheiro mandado pelos meus pais, e no dia seguinte não ter o que comer. Aí minha colega de república me aconselhou a testar esse trabalho, já que ela era experiente no ramo. Eu achei um absurdo! Fiquei pensando nos meus pais, nas minhas amigas de Guanambi. E disse não. Mas no mês seguinte, meu pai mandou menos dinheiro do que no mês anterior, eu fiquei desesperada, liguei pra ele, e ele me disse que não podia fazer nada mais por mim, mandou também eu conseguir um emprego. Fiquei com muita raiva dele. Chamei minha colega e aceitei a proposta.
No mesmo dia ela me arrumou um cliente. Era super rico e super velho. Viciado em pó, me obrigou a usar também, fiquei morrendo de medo, mas até que gostei, dei uma surra de tabaca no velho, que ele nunca esqueceu. Foi bom, pois ele me pagou muito bem – fiquei fascinada com a valorização do meu trabalho.
Hoje tenho clientes empresários, professores, Juízes e até alguns cantores de axé daqui de salvador. Comprei um flat na barra. Estou na metade do meu curso, mas só vou me formar pra entregar meu diploma aos meus pais, não quero, ainda, sair dessa profissão.
Ah sim, faço enfermagem.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Série

Depoimentos de Garotas de Programa de diferentes classes sociais & culturais.
Tema: Minha vida não é uma gozação.
Episódio 1- Girlene, 23 anos – quenga de cabaré.
-Bom gente, meu nome é Girlene, mas meu nome de guerra é Shirley. Eu comecei nessa vida bem novinha, com onze anos. Ficava perambulando nas estradas, pegava uns caminhoneiros  lá perto de Nazaré das farinhas, mas malmente dava pra comer. Foi quando eu conheci Lurdão, uma sapata cafetina que tinha um brega em Cruz das Almas. Lurdão me levou pra trabalhar nesse brega, que se chamava Recanto dos Fogosos quando eu tinha quinze anos, mas só pra lavar prato, varrer e limpar os quartos das quengas. Um certo dia, Marivaldo, um cliente muito do rico de Lurdão, me viu varrendo o terreiro e perguntou se eu era puta nova, ela riu e disse que dependia do pagamento dele. Foi aí que eu entrei pro ramo das quenga de Lurdão.
No começo eu só ganhava vinte reais por noite, de modo que Lurdão lucrava cinqüenta reais da minha parte por cliente. Quando eu fui ficando mais experiente lá no brega, eu fui ganhando mais. E hoje eu até ganho bem por mês, o mal é que eu gasto muito dinheiro com médico por causa de umas doenças que eu peguei durante minha vida. Mas Lurdão fala que é preciso investir nessas coisas, porque é meu ganha pão.
De vez em quando eu vou na igreja de crente, o povo lá canta bem e o pastor me adora. Mas o povo é que não gosta muito da minha presença lá, eu não sei por quê, deve ser inveja. A pior coisa que tem nessa vida é inveja, se eu pudesse, ai ai, não vou nem dizer...
Acabou?
Tchau gente, um beijo...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Resposta.

Santa Chuva
Maria Rita
Composição: Marcelo Camelo

(ele)

Vai chover de novo
Deu na TV
Que o povo já se cansou
De tanto o céu desabar
E pede a um santo daqui
Que reza a ajuda de Deus
Mas nada pode fazer
Se a chuva quer é trazer você pra mim
Vem cá, que tá me dando uma vontade de chorar
Não faz assim
Não vá pra lá
Meu coração vai se entregar
À tempestade...


(ela)

Quem é você pra me chamar aqui
Se nada aconteceu?
Me diz?
Foi só amor? Ou medo de ficar
Sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem...
A chuva já passou por aqui
Eu mesma que cuidei de secar
Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha TV
Que eu vou de vez
Não há porque chorar
Por um amor que já morreu
Deixa pra lá
Eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Gabriela, SEMPRE GABRIELA.

‘’Dizem que sou louca
Por pensar assim
Se sou muito louca
Por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz!
E não é feliz!
Não é feliz...’’ (
Arnaldo Baptista e Rita Lee)

A da pomba-gira.
Tão doce, tão linda, tão louca. Se faz boneca, às vezes, mas vem a pomba e acaba com tudo (risos). Quando a conheci, me sentia insegura “-será que ela é tudo isso mesmo que dizem?’’. Sim, ela é isso tudo e mais um muito. Como descrever corpo e mente de alguém assim? Bom, vou começar pelo corpo: tamanho mediano, morena/loura, dourada, sexy, tamanho P, pernocas rechonchudas, andar despojado, olhar denunciador. Mente: atriz, sentimental no ápice, sonhadora, INTENSA, boba, safada, carinhosa também no ápice, antiga virginiana e recém libriana.
Se ela soubesse o quanto quero o bem dela, o quanto me dói vê-la sofrer, e o quão valioso é o seu riso pra mim...
Nossa amizade é especial, não foi feita apenas de momentos felizes, mas de muitas experiências vividas juntas, ora boas, ora tensas, mas sempre inesquecíveis.
Se eu estou triste, penso nela quando se joga na parede e imita um sapo.
Se eu estou feliz, lembro da inveja branca que sinto do seu sorriso mais’q’lindo.
E se estou brava, peço a Deus que me mande todas as pombas que habitam no corpo dela, minha eterna Gabriela.

Todas As Mulheres Do Mundo
(Rita Lee)

Mães assassinas, filhas de Maria
Polícias femininas, nazijudias
Gatas gatunas, kengas no cio
Esposas drogadas, tadinhas, mal pagas
Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz
Garotas de Ipanema, minas de Minas
Loiras, morenas, messalinas
Santas sinistras, ministras malvadas
Imeldas, Evitas, Beneditas estupradas
Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz
Paquitas de paquete, Xuxas em crise
Macacas de auditório,velhas atrizes
Patroas babacas, empregadas mandonas
Madonnas na cama, Dianas corneadas
Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz
Socialites plebéias, rainhas decadentes
Manecas alcéias, enfermeiras doentes
Madrastas malditas, superhomem sapatas
Irmãs La Dulce beaidetificadas
Toda mulher quer ser amada
Toda mulher quer ser feliz
Toda mulher se faz de coitada
Toda mulher é meio Leila Diniz

Leila Diniz.

domingo, 7 de novembro de 2010

Parte IV - ultima.

O coração disparou. Com a voz tremula ela perguntou:
- Quem é? – e o visitante não respondeu, apenas bateu novamente...
Então ela abriu a porta com os olhos fechados, e acompanhou com o olhar dos pés até a cabeça do suposto visitante. Droga! Era o tal poeta bêbado.
Sem paciência, ela perguntou o que ele queria e não convidou para entrar. Mesmo assim, o poeta a empurrou para o lado e entrou, e já foi logo tirando os sapatos. Ela se irritou, e perguntou o que queria, já que ela o dispensou. Ele, completamente pervertido por pensamentos eróticos em relação à Lisbela, disse:
- Minha jovem, eu sei o que fazes nessas noites de lua cheia, alias, em todas as luas. Para de esperar alguém que nunca chegará. Dê uma chance para a sua vida que está repleta de boas oportunidades. Se ele dizia te amar tanto, por que nunca voltou? Por que não te escreve? Por não manda um cartão de natal? Ele nem lembra que você existe, Lis.
Lis sentou-se no sofá de maneira despojada, respirou fundo, aliviando seus pensamentos pesados, olhou no fundo dos olhos verdes daquele homem bonito, e quando ia responder foi interrompida por ele, que disse:
- Me dê uma chance, só uma. Esta noite. Posso te fazer feliz hoje, e se você gostar, passarei a vir aqui toda quinta-feira, no final do seu show. Mas se você não gostar, mudar-me-ei para bem longe, França, Itália ou até mesmo para o inferno.
Lis riu. Andou pela casa com uma mão na cintura e a outra no queixo. Pensou. Pensou. E decidiu deixar o Poeta passar aquela noite com ela.
Durante a noite, eles beberam, dançaram, recitaram poesias, fumaram, quase transaram...e enfim adormeceram em um sono profundo com as pernas embaraçadas.
Subitamente, a porta da casa de Lisbela começou a ser espancada desesperadamente, assustando-os. Ela perguntou para Tom:
- Você é casado? – com cara de espanto.
- Claro que não! Eu vou ou você vai? Morrendo de medo, o covarde poeta.
- Você vai, né? Já pensou se for um ladrão? Vá, vá logo.
E o medroso Tom foi com as penas tremendo e com uma imensa colher de pau nas mãos. Abriu a porta devagar, e perguntou:
- Quem é você? O que você quer?
Mas o inconveniente visitante não quis conversa, foi logo empurrando a porta e perguntando por Lisbela:
- Cadê Ela?
- Arlindo? AAAAARRLLIINDDO?? Como assim? Onde você estava esse tempo todo?
- Ora Lisbela, mande esse cara ir embora, e vá tomar um banho.
- Eu não acredito que depois de tanto tempo você volta para me dar ordens! Saia da minha casa, seu grosso!
- Você quer mesmo que eu saia?
- Não! Fique! – Lisbela olhou para o Poeta, e docemente falou: - Por favor, Tom, saia daqui. Amanhã eu ligo para você e explico o que aconteceu.
O poeta ficou furioso. Pegou suas roupas esparramadas pela casa e saiu xingando Deus e o mundo.
Arlindo pediu novamente para Lisbela tomar um banho, afinal, ela estava suja de um suor masculino... E ela foi, com o coração na garganta, sem acreditar no que estava acontecendo. Se banhou, vestiu uma toalha, e sentou em frente ao desgraçado.
- eu começo, ou você começa? – perguntou Arlindo.
- Eu. Sabe quantas noites eu passei...
- Cala a boca, eu já sei de tudo:  sofrimento, mudança, novos hábitos... você quer mesmo falar isso pra mim?
Lisbela sentiu uma raiva tão intensa naquele momento, que a única reação que teve foi dar um belo de uma tapa na cara dele.
O silencio se fez por cinco minutos. Ele tocou em suas cochas. Ela se arrepiou. Ele olhou pra ela com desejo, e ela correspondeu. E assim começou uma intensa cena de paixão: aos murros e gemidos.
No inicio da manhã, durante um café preparado por Arlindo, Ela insiste na pergunta:
- Onde você estava, cretino?
- Ora, estava na minha casa, com os meus quatro filhos e minha dedicada esposa: Inaura.
- Então a historia que Margarete me contou era verdade. Seu miserável, asqueroso, verme...!
- Pare de ser dramática, Lisbela. Você não formou uma família porque não quis, nunca disse que você seria minha para sempre.
- Como ousas a falar isso? Eu dediquei minha vida inteira a você. Pra onde vais quando sair daqui?
- Voltarei para minha família.
- O que? Você ainda está casado? Que desgraça, Arlindo. Vou ser sua amante agora?
- Só se você quiser, querida...
- Onde você mora?
-Pra que você quer saber? Para fazer escândalos na minha porta?
- Até parece que você não me conhece. Odeio escândalos! Só quero saber para não...
- para não o que? Não vou mais ficar sem vir te ver, minha doce...
- Eu não quero ser sua amante, seu vagabundo.
- por que não?
Lisbela pensou, pensou... e chegou a conclusão que sua vida com Arlindo seria perfeita se fossem amantes, pois ela poderia continuar trabalhando, cantando, saindo com outros homens e ainda tendo a melhor parte do seu amor por perto sempre que quisesse.
- Tudo bem, seu ordinário. Serei sua amante... mas com algumas condições...
- qualquer uma, minha diva, sei que valerá por suas penas saborosas!
- Quero você presente todas as quintas, feriados, dia dos namorados e, claro, no meu aniversario.
Arlindo aceitou as condições de Lisbela. E hoje, são os amantes mais conhecidos da cidade de cabrobró. Os shows de Lisbela que eram feitos em um bar, hoje se faz num clube bem conceituado, e Arlindo é dono de um cassino que fica no clube – perfeito.
E assim continua a saga dos eternos amantes...
Aah sim, Inaura e os quatro filhos de Arlindo estão em casa, todos gordos e fúteis. E todo natal recebem a “Amiga” de Arlindo em sua casa com muita educação e ingenuidade. HAHA
Lisbela e Arlindo nunca foram tão felizes: dinheiro, sexo, amor e boemia. Brigas de vez em quando eram ótimas para esquentar a relação. Vá entender esse amor fugaz e “eterno”.

James Dean and Marilyn Monroe.

Sempre.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Parte III

O bar estava lotado: homens, mulheres, poetas, fotógrafos,  jornalistas, artistas e pseudo-artistas . Assim que Lis entrou sentiu uma estranha sensação. O mesmo pressentimento quando conheceu Arlindo. Ela foi ao seu camarim, virou três taças de vinho seguidas, olhou seu rosto no espelho e saiu.
Quando subiu no palco, a luz que refletia apenas o seu corpo acabou cegando-a, impedido de ver a platéia. Deu boa noite. Cantou a primeira canção. Sentiu-se tonta. Ausentou-se durante uns quinze minutos. Voltou. Já se sentia melhor. Pediu desculpas ao publico. E deu seqüência ao show.
Mesmo linda, com a voz impecável e inspirada, Lis sentia uma insegurança que nunca sentira antes. Era como se fosse a primeira vez que estava ali. Mesmo assim segurou a onda, e seguiu quase naturalmente, se não fosse um pedido de um fã, que dizia: -Linda mulher, desejo que tu cantes ‘a woman left lonely’ de Janis Joplin.
No momento, Lis gelou, pois a musica dizia exatamente o que ela sentia. Mas já tinha se acostumado com pedidos de fãs, então não o decepcionou. Cantou e o publico aplaudiu de pé. Mas aquela sensação ainda não havia passado, Ela já estava desconfiada, ou iludida. Quando cantou a ultima musica, agradeceu ao publico pela presença e desceu desnorteada, como se procurasse alguém no meio da multidão.
Nesse caminho, Ela esbarrou no tal poeta. Ele se chamava Tom Capricorniano, e era seu fã desde o primeiro show. Ele a pegou pelo braço, deu-lhe um abraço desengonçado, e sussurrou no seu ouvindo:-Te espero no camarim com flores e propostas...
Ela riu como se fosse uma piada, pois Ele já estava bêbado. O poeta seguiu para o camarim da recém artista. Ela continuou a procura, e de repente viu um homem de costas que lembrava vagamente Arlindo, ela considerou o tempo que não mais via seu amor, e já foi puxando o desconhecido, que virou assustado pensando pornografias. Ela se desculpou. Sentou na primeira cadeira que encontrou, e chorou desapontada fumando seu cigarro.
Depois de um certo tempo chorando de cabeça baixa, Lis se lembrou de Tom, que disse esperá-la no camarim. Então ela seguiu para lá. Quando chegou, o poeta boêmio já estava roncando. Ela fez um barulho proposital para que ele acordasse naturalmente. E assim aconteceu. Ele riu e pediu que a cantora se sentasse ao lado dele, dando três tapinhas no sofá. Ela notou umas flores próximas ao espelho, mas nada disse, apenas fez uma expressão de curiosidade. O poeta começou a citar algumas poesias que havia composto para ela, mas ela nem prestou atenção, queria ir direto ao assunto. Pediu que adiantasse as supostas propostas. Ele, por sua vez, se declarou. Disse que desde a primeira vez a viu cantando ficou alucinado por ela e que ela o seduziu intimamente, pois quando pensa nela, o corpo corresponde o pensamento, desejando se fartar daquele corpo perfeito, maquiado pela voz e personalidade que ela possuía. Ele queria casar com ela, ter filhos, e ser seu empresário – bobo.
Lisbela até poderia ser uma mulher vulnerável por causa da sua carência, mas não era boba. Ela sabia que a verdadeira proposta do poeta era ganhar dinheiro à custa dela. E recusou o pedido imediatamente.
Quando chegou em casa, Lis sentiu um extremo cansaço nas pernas e nos ombros. Por isso tomou um banho demorado, fumando, bebendo, chorando e ouvindo Pink Floyd. Vestiu uma camisola que a muito não vestia. Quando apagou as luzes para dormir, alguém bateu na porta. E ela logo reconheceu o toque.

Continua...

Rita Hayworth. Linda.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Parte II

Lisbela estava cansada daquela vida monótona, daqueles vizinhos tarados e de tudo. Então resolveu mudar. E mudou. Transformou-se numa mulher independente, com emprego, carro e cigarros. Chega de amizades com mulheres! Chega de usar vestidinhos de renda. Chega de esperar alguém que nunca chega.
Ela trabalhava o dia inteiro num escritório de contabilidade, e a noite cantava num bar lotado de homens: poetas, músicos da bossa nova, empresários e cafetões.  Lis estava completamente mergulhada no mundo do jazz, e todos iam para o bar apreciar a linda voz da mulher que usava blusa social masculina, calças e um pequeno chapéu preto. Uma polpa nos cabelos e sempre acompanhada por um cigarro e um copo de vinho (barato).
No fim da noite, quando cantava a ultima musica, sempre a dedicava para Arlindo. No fundo ela achava que ele estava morto, e a dor de não ter velado aquele corpo que a tocou por todas as partes, deixava a pobre Lis profundamente triste... e quando ela estava triste, cantava com muito mais emoção.

O publico foi à loucura quando Ela, louca de vinho, disse: -Hoje é uma noite especial. Estaríamos comemorando dez anos juntos, no entanto, o desgraçado fugiu com meia dúzia de pernas magras para longe das minhas pernocas salientes. E hoje estou aqui, sozinha, ou melhor, acompanhada apenas pelo meu melhor amigo: o álcool. Mas com certeza tem alguém a espera de vocês lá fora, e se for uma mulher, meus caros, jamais a abandone. Pois embora vocês estejam aqui, Elas estão ao lado da porta, ouvindo um disco velho de Roberto Carlos, chorando e ansiando a chegada dos seus respectivos Homens... enfim, quero dedicar essa musica ao homem mais cafajeste de todos os tempos: Arlindo Orlando.- E usou o mais lindo tom de sua voz ao cantar Someone To Watch Over Me (George Gershwin / Ira Gershwin). Foi lindo.

 

No dia seguinte, a cidade não comentava outra coisa, a não ser o sucesso que Lisbela estava fazendo entre os homens. Todos queriam conhecer a voz mais vibrante da cidade. Acontece que Ela só cantava para desabafar a dor que sentia vinte e quatro horas por dia, pelo abandono de Arlindo.

 

Quando Lis tomava o seu café da manhã, antes de ir trabalhar, ela se lembrava do dia que ele dormiu na sua casa, e preparou um delicioso café da manhã, cheio de flores e frutas. Ele vestia apenas uma cueca samba canção e tinha uma toalha enrolada no pescoço. Os cabelos molhados e já ajeitados para trás. Ela usava um hobe rosa de seda com rendas negras que valorizavam suas curvas. Os cabelos soltos, o que era raro. Foi a manhã mais linda da sua vida. E a ultima ao lado do seu amor.

 

Então foi trabalhar, com os olhos inchados de tanto chorar. No finalzinho tarde, quando voltava para casa, acendeu um cigarro discreto. Passou por uma praça onde costumava se encontrar com Arlindo. La ainda estava um parque antigo, uma arvore e um banco de madeira que sempre marcava sua bunda quando ficava muito tempo sentada, mas ela nada sentia, pois estava anestesiada pelos beijos e toques avassaladores de Arlindo. Ficou parada durante cinco minutos, olhando a praça e lembrando de alguns momentos vividos ali. Depois voltou para casa, pois aquela noite prometia. Quinta-feira era o dia dos poetas irem para o Bar onde ela cantava, e estava de olho em um deles.

 

Chegando em casa, Ela foi logo tomar um banho. Começou a escolher a roupa. E naquela noite, ela usou um longo vestido preto, que deixava suas costas totalmente nua. Quando estava se maquiando, ela se lembrou de Arlindo deitado em sua cama, falando que ela tinha uma beleza pura, natural, e não precisava de maquiagem. Mas continuou a passar o seu batom mais vermelho de todos, pesou bastante nos olhos – irresistível.

 

Quando Lis chegou ao bar: uma surpresa.   

 

Continua...


audrey hepburn vestido Festa Temática   O Glamour do Cinema na vida real, parte 1 fotos

 Audrey Hepburn. Sem comentários.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Parte I


Quando Lisbela tinha treze anos, conheceu Arlindo – um caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Cabrobró. Logo no começo dessa futura relação, Ela sentiu que estava entrando numa cilada, e o futuro provou ser verdadeiro a este pressentimento.
Em tudo eles combinavam: desejos, sonhos, musica e boemia. Alem de supostos amantes, eles eram grandes amigos, e nada nem ninguém discordava desse fato. Eles estavam muito bobos um pelo outro, no entanto, não conseguiam expressar tamanho sentimento, pois o publico censurava aquele romance avassalador. Quando esse efeito anestésico da paixão por Lisbela foi passando, Arlindo foi mudando seu comportamento.
Enquanto Lis sonhava com o seu bem-amado, Ele, por sua vez, aproveitava o auge da sua juventude – que era repleta por falsos brilhantes. De nada importava o quanto ela se sacrificava por ele, Arlindo estava entrando no fantástico mundo de Woodstock, e isolando a Donzela vagarosamente da sua vida.
Mas como se tocar que estava faltando espaço para Ela no mundo de Arlindo? Não se tocou. E ainda nas noites mais sombrias e tenebrosas, lá estava a Bela a esperar o seu Dom Juan voltar de algum qualquer lugar, sujo por outros batons que se tornavam invisíveis aos olhos da paixão sufocante que reinava absoluto no coração da Cigana de olhos cor de mel.
Havia rumores da suposta vida paralela que Arlindo sustentava longe de Lisbela, e Ela até sabia, mas não conseguia usar as migalhas de tempo que tinha ao lado do seu Rei para fazer a Criatura mal amada que vestia azul anil. Na verdade, a Pobre tinha medo de confrontá-lo e Ele ignorar o sentimento dela, partindo de vez para bem longe da Senhora Carência.
Com o tempo, nada mudou. A vida paralela de Arlindo evoluía, e o romance das seis que ele tinha com Lisbela, regrediu. A única pessoa que não percebia isso era a própria Donzela. As visitas do rapaz ficaram cada vez mais raras. O vinho barato e um disco de Roberto Carlos que Ele esqueceu na casa Dela, eram as únicas companhias que ela tinha quando insistia em esperar o Arlindo, que nunca em sua vida disse ao certo quando chegaria.
Lisbela passava os dias e as noites ao lado da porta, do vinho e da radiola, na espera de Arlindo, que já há dois anos não mandara noticias. Jamais Ela imaginara que longe Ele se encontrava. Os amigos até tentavam consolá-la. Diziam:
- Lisbela,Deixe de ser ingênua, Mulher! Arlindo se foi com Inaura. Já tem filhos e não voltará. – na pura e mais árdua sinceridade de Margarete, a vizinha.
Falavam também que o moço já tinha batido as botas há um ano, e que nem uma carta deixou para a boba da Lisbela.
Acontece que diante de um passado tão mágico, tão verdadeiro, era impossível se convencer que tudo não passou de ilusão. Pois quando Arlindo se fazia presente, tratava Lisbela da forma mais singela e sincera que um Cavalheiro pode tratar uma Dama. Ele a amava de verdade, e fez dos momentos que passaram juntos os mais felizes. Ele dava adrenalina ao coração mais medroso do bairro. Dizia coisas que nem o mais apaixonado Shakespeare disse em suas obras. Deu vida, forma e conteúdo a uma mortal que antes de conhecê-lo só sabia bordar suas toalhas. Ele a fez.
Lisbela já tinha descoberto todas as falcatruas de Arlindo, mas também já tinha perdoado, e a única coisa que desejava era ouvir o toque das mãos dele, batendo naquela porta velha que a muito ninguém batia.
Passaram-se cinco anos. Ela já estava diferente: suas curvas eram mais preenchidas por carnes tão saborosas que todos os homens do bairro desejavam se fartar. Seu olhar manso e ingênuo se transformou em olhos de cigana – oblíquos e dissimulados. Os cabelos já com outros fios. E principalmente, o jeito de encarar os fatos já se encontrava maduro.
Um dia, passando por aquela antiga rua, um amigo de infância parou em sua casa para beber água, e disse algumas palavras que provocaram uma terrível depressão em Lisbela. Ela se lembrou de cada detalhe daquela historia que acabara em abandono. Comprou um vinho barato, procurou O disco de Roberto Carlos, e passou o resto da noite chorando e esperando Alguém bater naquela velha porta. Trágico.
Ninguém bateu. Ela acordou zonza de ressaca moral, e continuou a sua vidinha parada e depressiva. Longe de toda e qualquer noticia daquele primeiro e derradeiro amor que roubou sua identidade, e fugiu para longe, deixando a pobre entre os poucos cuidados dos vizinhos pervertidos e amigas invejosas.
Há quem diga que ainda hoje, Lisbela espera ouvir a porta bater, e aquele Homem entrar sujo de batom, com cheiro de cigarro, pedindo socorro e reafirmando que o amor que Ele dizia sentir ainda vigora naquele coração de pedra que pertence a mais pura dama de Cabrobró: Lisbela.


Continua...

James Dean e Natalie Wood (Rebelde sem causa).



terça-feira, 26 de outubro de 2010

Infinitos GB de memória.

Jersi era uma menina diferente das outras. Ela gostava de musicas antigas, tinha amizade com pessoas mais velhas e nunca gostou de popularidade. Uma das suas principais características era seu gosto “incomum” por pessoas. Não, ela não era lésbica. Apenas gostava de pessoas “estranhas”, em outras palavras, desprovidas de muita beleza.
Criticavam muito a pobre garota por isso, mas Ela não se importava, pois não tinha nascido para agradar o gosto de ninguém, somente o dela. Em um desses seus romances “incomuns”, ela conheceu um amigo: Elefante.
Ela deu esse apelido a ele porque nunca tinha conhecido alguém com uma memória tão aguçada. Ele simplesmente não esquecia de nada. Datas, momentos, micos e mulheres nunca passaram por despercebidos na vida dele. Até coisas que aconteceram quando ainda tinha três meses de vida, ele sabia contar com detalhes. E ela se prendia a essa amizade justamente por causa dessa valorização rara que ele dava as pequenas coisas.
Jersi tentava encontrar esse valor em outras pessoas, mas ninguém conseguiu superar essa característica marcante de Elefante. O jeito como ele se importa com os pequenos detalhes de TUDO é, de fato, apaixonante.
Conseqüência dessa amizade tão sólida e verdadeira, ainda nos anos de 2070, Jersi se encanta, quando senta para prosear com o velho amigo, e relembrar o passado, rindo dele falando:
- Eu ainda lembro de algumas tardes que fui te visitar na casa de Dinha... tu deitada no sofá e eu te acordava chamando teu nome... tu de camisetinha básica e com um pijama de seda de Lão, a cara toda amassada, o cabelo todo desgrenhado e boca escorrendo baba!
E a velha Jersi ri e se pergunta:
- Mas como é que ele se lembra disso?

Continua...

Sedentária anônima.


- Oi, meu nome é Sedentária.
- Oi Sedentária!
- Bom, se existisse um prêmio mundial que homenageasse a pessoa que menos sabe aproveitar feriados perfeitos, com certeza, eu ganharia disparada de qualquer nerd, gordo complexado, bicho preguiça, enfim, não haveria chances para os adversários.
Quando finalmente tem um feriado nessa droga de ano, eu sempre penso:  -Sedentária, não seja burra! Aproveite esse feriado para dormir, dormir, beber, visitar amigos, dormir, atualizar os conteúdos da faculdade, dormir, namorar, assistir um filme, visitar seus avós, beber, namorar e dormir.
No entanto, durante o feriado eu nunca consigo fazer nada dessas coisas. É uma chatice. É frustrante. Não me divirto. Não durmo. Não saio. Não bebo, ou melhor, bebo pouco. E meus avós coitados, nem lembram mais da minha cara.
Eu invejo muito as pessoas que sabem administrar seus feriados. Que arranjam tempo para tudo. Estão sempre com a pele linda e o olhar alegre. Mas quando me vejo, nova desse jeito, levando essa vida sedentária, fico muito preocupada com o futuro do meu ser. E me pergunto se morrerei com 200 Kg, um balde de batata, um pote de sorvete, solteira, com vinte e sete gatos ao redor e assistindo ‘Le fabuleux destin d'Amélie Poulain’ pela milésima vez.
Obrigada. Mais 24 horas.

Sra. Razão


Mistério é o principal motivo pelo qual eu me apoio para continuar buscando nela, o sentido de tamanho sentimento que guardo no coração. Dentre outras qualidades, o humor dela me fascina! Seu pensamento rápido, seus termos engraçados, essas coisinhas bem características de cada um. Dentre outros defeitos, o humor dela continua se sobressaindo (risos), quando chego à sua casa, cheia de sorrisos e amor pra dar, e ela me olha com aquele olhar noturno que fala ‘’-hoje eu não estou boa, nem encosta!’’ (risos).
Ela não precisa falar para os que a amam e a conhecem que ela está bem ou não. Sabemos exatamente o que fazer para arrancar um sorriso ou uma lágrima daquele lindo rosto. Mas, a propósito, não tente fazê-la chorar, para a segurança e paz de todos (risos).
Cheia de complexos e medos, no fundo ela sabe o quanto é linda linda linda, e que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Seria interessante sabermos um modo fácil de mostrar isso pra ela, porque é doloroso vê-la sofrendo por coisas ainda inexistentes.
Um dia, ainda vou fazê-la se sentir bem ao máximo, por completo e intensamente. Sem medos de futuras e supostas decepções, pois viver qualquer momento ao lado dela é fantástico, tirando a parte que ela não tira os pés do chão em momento nenhum. ‘’ Mulher sem razão ouve o teu homem, ouve o teu coração’’(risos).

sábado, 23 de outubro de 2010

Branquitude Jr.

Em toda a minha vida de amores e amigos, eu jamais conheci alguém como Ele: branco, NERD e tímido.
A sua cor é algo instigante. Ele é tão branco, mais tão branco, que quando está sob uma luz negra fica fluorescente. Quando faço piadas, as mais inocentes, suas bochechas ficam coradas e parecidas com suculentas maçãs maduras. Quando passa por um suposto flerte, as mãos ficam molhadas de suor, o braço treme junto com as pernas, o olhar fica perdido e a voz desaparece. Eu amo a sua cor por dois motivos: um- sabe se comunicar, atraves das transformações camaleônicas o que está sentindo, sem precisar falar. Dois- me lembra sua doce irmã, Sônia.
A inteligência deste brankelo desengonçado ultrapassa toda e qualquer barreira acadêmica. Fruto de uma família tradicional, Ele sabe de tudo. De física a receitas para o coração. Não preciso falar que estou triste, ele sabe ler no meu olhar o que estou sentindo, e dizer doces e sábias palavras que confortam o meu coração.
Não sei se alguém sabe, mas Eu adoro pessoas tímidas. Isso porque me acho dona de um dom que faz com que os mais tímidos fiquem a vontade na minha presença. E desde a primeira vez que o vi naquela sala de aula repleta de loucos, me desafiei a criar uma amizade sólida com a criatura mais sem jeito¹ do mundo.  Me lembro com alegria de um dos episódios dessas tentativas, essa por sua vez, foi não obteve sucesso. Numa prova de biologia, cuja eu não sabia bulhufas, sentei-me atrás Dele. Ele usava um casaco preto que fazia um forte contraste com sua pele cor de nuvem. Na hora do desespero, eu me inclinei a pescar todas as respostas dele – que era e é um NERD -, quando ele percebeu esse assalto, começou a suar frio, deitou sobre a prova e me implorou que parasse de fazer aquilo com ele.
Eu me senti a pior das criaturas. Uma assaltante de respostas. E ele criou uma notória barreira de proteção contra a ladra de provas. E por isso que eu, mais do que nunca, quis ser amiga daquele chato. E jamais quero perder sua amizade, pois uma pessoa que guarda respostas de uma prova de biologia com tanta competência, com certeza protege um lindo e verdadeiro sentimento por mim. Tenho certeza disso.
¹- para não repetir a palavra tímido.

-Não achei nada mais lindo e branco, risos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Fala, que eu te como!


Sabe os sete pecados capitais? Alguns já viraram características minhas. Luxúria, Ira, vaidade e cobiça, já fazem parte do meu dia-a-dia. Mas, sem duvidas, o que eu pratico com mais freqüência é a GULA. Óbvio que eu tenho vergonha de relatar esses fatos, mas não posso guardar esse segredo para sempre.
Alguns alimentos me levam a tamanha gula, que pratico não só um pecado no ato, mas dois: gula e avareza.
Tenho uma forte atração por batata-frita. Seja ela como for. Batata-frita é a minha melhor amiga. Pronto, falei. Quando estou com ela, me escondo das outras pessoas, pois sinto ciúme quando tenho que dividi-la com alguém que nem aprecia tanto a sua existência. Faço loucuras por elas. Já me escondi no quarto, já esperei que todos saíssem para enfim degustar aquela preciosidade gordural, já neguei, já menti falando que ela não estava boa para que ninguém aceitasse... Essa louca ainda vai me levar à loucura.
Outra coisa que desperta meus instintos egoístas é o famoso chocolate. Não tem carnaval, São João, natal, dia das crianças... Boa mesmo é a páscoa! Fartura de chocolate! Se os esquilos entocam comida para o inverno, o problema é deles. Nunca consegui economizar dinheiro, quanto mais comida. Se tenho dez barras de chocolate, é chocolate no café da manhã, almoço, lanche, jantar, e antes de dormir. Se for pra morrer de overdose, que seja de chocolate!
Você pode até achar que eu sou maluca. Mas eu poderia está matando, roubando velhinhas indefesas, fumando craque. Mas não, estou me enchendo de besteiras, que um dia farão um desastre no meu corpo.  Mas não tenho saída. Pois vim para um mundo cujo pecar é humano e comer é LUXO.

sábado, 16 de outubro de 2010

Vejo, logo modifico.

Certo dia, desabafei com uma amiga o quanto viajo nos meus pensamentos. Tive que fazer isso devido um notório momento de transição. Ela conversava alguma coisa comigo, e eu, do lado dela, nada ouvi. Foi então que ela me perguntou:
- O que tanto pensas?
No momento eu voltei para o mundo real e ri.
Acontece que antes de viajar profundamente, eu vejo uma cena e a modifico de forma cômica ou/e trágica, usando apenas meu pensamento. Isso seria legal, se não tivesse virado um vício, de modo que atrapalha muito minha concentração numa coisa que é de fato importante para minha vida, como minha formação acadêmica.
Uma vez, em uma aula de psicologia da educação, estávamos todos sentados muito à-vontade. Quando uma colega que tinha ido ao banheiro voltou para a sala, e pediu licença para um garoto que apoiava suas pernas numa outra cadeira. Ele disse pra ela:
- para passar aqui precisa falar a senha.
Eles riram e ele tirou a perna de maneira natural (Sem senha. Risos)
Na minha cabeça, eu achei que aquele momento precisava de todo um cenário, um figurino. Então os fiz desta maneira:
Num boteco, num Faroeste, onde cowboys são boêmios e paqueram donzelas vestidas com longos vestidos de renda e cetim.
Aquela noite, o boteco estava cheio, pois foi dia de festa na cidade, houve tiros e mortes. E todos estavam comemorando. Menos Douriety, que era a garçonete do estabelecimento, e já estava exausta de tantos comentários eróticos em relação as suas belas curvas.
Foi então que, ao passar do balcão para a arena de mesas repletas de homens barbudos e raparigas carentes, ela tropeça na perna de Frederico, o caminhoneiro matador, e ele, espalitando os dentes sujos, bebendo cerveja e com um sorriso cafajeste no canto da boca, diz:
- Douriety, sua rapariga sem coração, para passar por aqui, terás que me mostrar seus belos e fartos seios cor de jambo.
Ela, por sua vez, sempre muito bem preparada e valente, tira uma pistola da sua meia-liga, e diz:
podrás ver mis pechos en el infierno, oh Federico.
E atira três vezes no desgraçado, que morre nos braços de outras sete mulheres mal amadas, que juram morte a corajosa garçonete.
E assim foi interrompido meu mais fértil pensamento. Ainda penso se acontecerá alguma cena, que eu modifique e a faça continuação da brava historia de Douriety.